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15
Out09

... o capitalismo... de acordo com Michael Moore!!!...

sherpas

 

Michael Moore tem um dom. Como poucos, sabe transformar um filme num argumento político, sem esquecer que quem pagou o bilhete quer ser entretido. Tenta convencer sem ser chato, e consegue, em duas horas, apresentar argumento atrás de argumento até à conclusão inevitável que pretende. Acima de tudo, Moore percebe uma das grandes lições do ensino: nada é tão persuasivo como um bom exemplo. A história da vizinha que perdeu o trabalho tem um apelo que as estatísticas sobre o desemprego não têm.

 

... in http://www.ionline.pt/conteudo/27987-o-capitalismo-acordo-com-michael-moore

 

 

No seu último filme, Moore toca directamente as muitas feridas da economia americana. A desigualdade nos EUA cresceu nos últimos 20 anos, e o contraste entre a pobreza de muitos e o exuberante estilo de vida de poucos tornou-se chocante. Nos anos 80 e 90, o número de americanos na prisão disparou e são milhões os que não têm acesso a cuidados básicos de saúde. Mais recentemente, o plano Paulson conseguiu o prodígio de unir esquerda e direita contra a indústria financeira. A tentativa de dar de mão beijada 700 mil milhões de dólares dos contribuintes aos bancos, à pressa, sem contrapartidas, e à revelia de qualquer controlo legal ou político, despertou em muitos a certeza de que Washington está ao serviço dos mais ricos.


Moore brilha sobretudo nos exemplos. O caso de uma pequena cidade na Pensilvânia onde um juiz corrupto enviou dezenas de adolescentes injustamente para uma cadeia gerida por uma empresa privada provoca arrepios. Nenhum gráfico sobre o declínio da indústria automóvel americana tem o impacto das imagens dos bairros e das cidades abandonadas à volta de Detroit onde as principais fábricas do sector se concentravam.


Tudo combinado, temos uma obra de propaganda notável. Sim, porque é de propaganda que se trata, e Moore não tem receio de o admitir. Logo à entrada, o estereótipo da comparação da América actual com o Império Romano à beira do declínio não deixa margem para dúvidas. Ora o sucesso de uma obra de propaganda mede-se de duas formas. Em primeiro lugar, pela capacidade de convencer os não fiéis. Em segundo lugar, pela veracidade dos argumentos e pela capacidade dos exemplos de representarem fenómenos gerais. Convém que à saída do cinema o espectador não descubra, em conversa, que acabou de ser enganado.


O filme de Moore falha em convencer, porque exagera na tentativa de mostrar tudo na perspectiva do "nós contra eles". Moore concorda com a maioria das pessoas que Ronald Reagan, para o bem e para o mal, foi um dos presidentes mais marcantes dos últimos 50 anos, responsável pela viragem à direita dos EUA. Mas depois não resiste à tentação de o caricaturar como um homem fraco e sem ideias, um mero fantoche dos interesses dos bancos. A fonte universal do mal é a administração de George Bush e Dick Cheney, mas depois as armas são disparadas sobre Robert Rubin, o ministro das Finanças de Bill Clinton. No filme, tudo o que há de mau nos EUA, incluindo o furacão Katrina, é culpa do capitalismo. Num momento comovente, Moore entrevista dois viúvos, e o seu sofrimento é tão contundente que apetece gritar contra o capitalismo. Porém, segundos depois, o espectador descobre que os falecidos não morreram de um ataque agudo de capitalismo, mas de asma e cancro.


Nós, os doentes, os opositores de Bush, até os cristãos, somos os bons. Eles, os capitalistas, são os maus. O filme de Moore lembra os filmes de propaganda comunista que saíam da União Soviética nos anos 30 e 40. Quando tantas pessoas eram analfabetas, esta oposição ridícula entre o bem e o mal, aliada a alguma sofisticação na filmagem, conseguia converter. No século xxi só entusiasma os fanáticos da causa.


O castelo de exemplos que Moore monta ao longo do filme também cai ao primeiro sopro de pensamento. A desigualdade aumentou nos EUA, mas, olhando para os números, os 10% mais pobres estão bem mais próximos da classe média hoje do que há 20 anos. O aumento na desigualdade surge no fosso entre a classe média e os 1% mais ricos. Não eram as imagens de vagabundos na rua que deviam preocupar Moore; eram antes os bancários com cursos superiores que ele ridiculariza mas lutam para pagar as contas e mandar os filhos para a faculdade enquanto a Paris Hilton se cobre de jóias.


A corrupção de um juiz é sem dúvida um dos crimes mais graves num estado de direito. Mas a corrupção não é um problema só do capitalismo. Diz-nos a experiência que nos regimes comunistas há mais corrupção e com consequências mais trágicas. Além disso, Moore pode acusar os tecnocratas capitalistas pela crise financeira, mas as maiores falhas na supervisão sobre os mercados foram cometidas por instituições presididas por congressistas e "boys" dos partidos. Na cabeça de Moore há uma grande confusão entre os problemas do capitalismo e os problemas das democracias ocidentais.


O declínio de Detroit é chocante, mas valia a pena contrastá-lo com a ascensão das cidades do Sul, onde a nova indústria automóvel se tem instalado. Estavam abandonadas devido ao declínio da agricultura e têm florescido com a abertura de fábricas que, com gestão europeia e japonesa, e designs importados, têm os níveis competitivos de produtividade que Detroit e as marcas americanas por alguma razão não alcançam.


Por fim, Moore cai no ridículo. Apesar de todos os anos milhares de pessoas aprenderem em MBA e cursos de Economia pelo mundo fora o que são derivados, Moore só consegue arranjar um pobre desgraçado que em tempos trabalhou num banco para lhe dar uma explicação. Quando o homem não consegue dizer duas frases seguidas com sentido, Moore não procura quem explique melhor. Prefere concluir logo que os derivados são incompreensíveis.


Além de uma análise do presente, Moore oferece as suas previsões para o futuro. Inspirado por greves e manifestações de algumas centenas de pessoas há um ano atrás, Moore prevê uma grande revolução socialista. Infelizmente, nos últimos meses, as maiores manifestações nos EUA têm sido organizadas pela direita contra as subidas de impostos e a reforma do sistema de saúde. Obama iria repor a justiça no mercado financeiro, mas os principais economistas da sua administração são os mesmos que Moore critica durante o filme. Por fim, Moore acredita que as cooperativas e a autogestão das empresas pelos trabalhadores são o futuro. Percebe-se que um americano possa ter estes sonhos. Um português, que passou pelo pós-25 de Abril e pelo PREC só pode desanimar ao perceber que o futuro promissor de Michael Moore é o passado falhado de tantos países.


Moore, aliás, contribui como poucos para a imagem que os europeus têm do americano arrogante e ignorante. Com um tom muito sério, explica que a razão pela qual temos na Europa um estado -providência forte é a influência dos conselheiros que Roosevelt enviou para ajudar à reconstrução no pós-guerra. De acordo com Moore, foram essa meia dúzia de americanos esclarecidos que escreveram as nossas constituições e definiram as nossas sociedades. Que, talvez, os europeus tenham feito as suas próprias escolhas, que tenham as suas razões e pensem pelas suas cabeças, ou que existam na Europa dirigentes e pensadores com alguma influência, é algo que não passa pela cabeça de Moore.


O que este filme mostra é o fracasso da economia na comunicação de princípios básicos. Seria impensável hoje realizar um filme contra a democracia, embora a linha de argumentação de Moore precisasse de poucos ajustamentos para servir esse novo papel. Desde muito cedo, na escola, todos aprendemos que por muitos defeitos que tenha a democracia é o menos mau dos sistemas de governo. O capitalismo também é o menos mau dos sistemas económicos, mas atacá-lo não é censurável, e sim "cool". Nesta narrativa não há lugar para muitas variedades de capitalismo, nem para o papel da regulação em evitar muitos dos seus excessos.

 

Nesta longa linha de ataques ao capitalismo, será este filme ao menos bom entretenimento? Nos seus filmes anteriores, Moore usava arquivos extensos de filmagens com políticos e entrevistas com pessoas importantes e arrogantes para mostrar a sua ganância e estupidez. Estes momentos - "apanhei-te!" - eram a principal fonte de diversão. Mas Moore é hoje uma vítima do seu próprio sucesso. Ninguém de relevo quer falar com ele. Resta-lhe passar minutos infindáveis do filme aos gritos com um megafone à porta de prédios cinzentos, sem que ninguém lhe preste atenção. Michael Moore é um cineasta talentoso. É triste vê-lo reduzido a um velho louco aos gritos no meio da rua.

 

... enfim... "é triste vê-lo reduzido a um velho louco aos gritos no meio da rua".  Sherpas!!!...

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